sexta-feira, 16 de abril de 2010

Você é uma pessoa resiliente?


Após receber o diagnóstico de TDAH para minhas filhas, foi iniciada a terapia interdisciplinar: acompanhamento médico e terapia psicológica na linha da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) para as meninas, e orientação a pais e à escola, feita pela psicóloga. Durante o processo terapêutico, deparei-me com várias questões difíceis, entre elas a dificuldade de lidar com a frustração e com as adversidades.
Eu andava com aquela nuvenzinha preta em cima da minha cabeça, meio pessimista, tomada por pensamentos invasivos, com pouca fé no futuro, me sentindo muito triste e sozinha.
Nesse momento, fui apresentada à Resiliência, termo muito utilizado na Física e na Engenharia, porém adotado pela Psicologia, Educação, Sociologia.
       
No dicionário do Houaiss, resiliência é definida como:
- propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica;
- capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Tomado pela Psicologia para substituir os termos invencibilidade e invulnerabilidade utilizados até então, a resiliência passou a ser definida como:
- a capacidade do ser humano para lidar com as adversidades da vida, superá-las e ser transformado por elas;
- conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que possibilitam ter uma vida sadia num ambiente adverso.

A resiliência é uma imunidade psicológica, pode ser inata ou desenvolvida no ser humano e varia de acordo com as circunstâncias, dessa forma, a resiliência deve ser fomentada e promovida, caso contrário, diante de fatores de risco, o indivíduo pode desenvolver uma psicopatologia.

Os fatores de risco, entendidos como qualquer característica ou qualidade da pessoa que vem unido a uma elevada probabilidade de prejuízo à saúde, devem ser combatidos pelos fatores protetores (competência social, temperamento fácil, inteligência, autonomia, auto-estima etc) que atuam como escudo e favorece um indivíduo a reduzir efeitos ou circunstâncias desfavoráveis.

Certas características da pessoa possuem uma associação positiva com a possibilidade de enfrentar fatores de risco e de aproveitar os fatores protetores, sendo assim resiliente. Algumas dessas características são precoces na criança, tais como: autonomia, comunicação fácil, empatia, competência cognitiva e em resolver problemas, controle de impulsos, capacidade de atenção e concentração. Devemos lembrar que as últimas 3 características são, em geral, disfuncionais nos portadores de TDAH, fazendo-se necessário que essas pessoas aprendam a desenvolver a resiliência, pois se as demais qualidades forem corretamente articuladas essas pessoas poderão usufruir dos benefícios resiliência. 
A resiliência está diretamente relacionada com o vínculo afetivo de cada dinâmica familiar ou social, composta por pessoas que nos fazem sentir queridas, úteis e importantes. Segundo GROTBERG (1995), os atributos considerados como fontes de resiliência podem ser verbalizados em 4 condições:

1) EU TENHO: 
-pessoas ao meu redor nas quais eu confio;
-pessoas que me mostram o que é certo e me ensinam a fazer coisas para que eu tenha autonomia;
- pessoas que me ajudam quando necessito.

2) EU SOU:
- uma pessoa amada e querida pelos outros;
- uma pessoa capaz de fazer o bem;
- uma pessoa responsável e respeitada;
- uma pessoa que confia que as coisas vão dar certo.

3) EU ESTOU:
- certo de que tudo vai sair bem;
- rodeado de amigos e colegas que me apreciam;
- disposto a me responsabilizar pelos meus atos;
- triste, mas com a certeza de encontrar apoio.

4) EU POSSO:
- contar para os outros sobre assuntos e dificuldades que não entendo e me assustam;
- encontrar caminhos para resolver os problemas que surgem;
- me controlar e esperar o momento certo de falar e/ou agir;
- encontrar alguém que me ajude quando eu preciso.

A pessoa resiliente tem forte senso de identidade, auto-estima positiva, independência, autocontrole, confiança no futuro, capacidade de comunicação e de demonstrar habilidades sociais. É uma pessoa otimista, persistente e esforçada, capaz de pensar de forma crítica e descobrir soluções para os problemas que se apresentam, procurando adaptação porque é flexível e quando as experiências são muito negativas, se engaja numa distância adaptativa da situação para buscar ajuda.

A resiliência é contingente, imprevisível e, sobretudo, dinâmica. Na nossa convivência familiar, nesse processo de descobrir e aprender a lidar com o TDAH, vimos aprendendo a ser pessoas resilientes, flexíveis como o bambu que enverga mas não quebra!!

E você? É uma pessoa resiliente?
Pense nisso!

Arnete de Almeida Faria   

  

domingo, 7 de março de 2010

Gerência de desempenho escolar

Os sintomas do TDAH podem se manifestar desde o berço com sono agitado, choro fácil, intensa atividade motora, excessiva irritação, porém, é na escola que alguns sintomas são evidenciados e podem levar pais e professores a considerá-los dentro do padrão de normalidade. Por volta dos seis e sete anos de idade, época de alfabetização, os sintomas se agravam em razão de atividades que exigem mais atenção por um período longo e einibição do comportamento inadequado. 
A partir do segundo ano do ensino fundamental, o conteúdo programático se faz mais aprofundado e passam a ser avaliados o desempenho em deveres de casa e provas que exigem domínio da memorização, flexibilidade em resolução de problemas e maior atenção a detalhes.
Antes de qualquer procedimento, pais e professores devem se informar sobre o transtorno, ter consciência dos próprios limites, buscar apoio mútuo e, principalmente, ouvir a criança, estabelecer empatia com ela, incentivar e valorizar seus talentos.
Crianças portadoras de TDAH têm problemas de criar motivação interna para permanecer em tarefas que consideram trabalhosas, demoradas e chatas. Pais e professores podem ajudá-las dando um empurrão na motivação externa. Assim, seguem algumas sugestões de Hallowell para o gerenciamento do desempenho escolar para ajudar a criança a:

(a) criar uma estrutura interna com auxílio de agendas, blocos de anotações, listas, lembretes, arquivos para marcar compromissos e prazos;
(b) organizar o ambiente de estudo para sentir-se organizado, evitando o acúmulo de papéis e materiais sobre a mesa, pois a sensação de organização externa ajuda a criar uma organização interna;
(c) prevenir frustrações lembrando que na vida há perdas e ganhos, acertos e erros;
(d) aceitar desafios com a condição de não ser excessivamente perfeccionista ou meticuloso, evitando que a criança abandone a tarefa iniciada;
(e) subdividir as tarefas grandes em menores, determinando prazos para realização de cada etapa. É comum a criança sentir medo e desânimo diante de uma tarefa grande ou com muitas etapas;
(f) priorizar e não acumular tarefas para não perder a noção de tempo. O adiamento é uma das marcas principais de pessoas com TDAH porque elas lidam mal com a administração do tempo e costumam perder os prazos;
(g) descobrir em que ambiente a criança funciona melhor e consegue manter um nível de atenção. Algumas crianças preferem fazer os deveres de casa na sala, ouvindo música porque assim conseguem abstrair os demais ruídos enquanto outras preferem o silèncio absoluto;
(h) não complicar nem acumular tarefas só para sentir-se estimulada. Iniciar nova taefa apenas quando tiver terminado as anteriores, porém, algumas crianças se saem melhor realizando duas tarefas ao mesmo tempo;
(i) descobrir o que a criança sabe fazer bem (pontos fortes), sem preconceitos;
(j) ensinar a separar um tempo para organizar os próprios pensamentos, pois transições são difíceis de serem aceitas e pequenos intervalos podem ajudar;
(K) aprender a elaborar roteiros de estudo e usar marca textos ou lápis coloridos na leitura para manter a atenção e destacar as informações mais importantes;
(l) estimular a prática de exercícios físicos, neste caso o professor é um excelente aliado.

A criança com TDAH é mais sensível a recompensa imediata e reforço positivo do que as demais crianças, portanto é recomensável incentivá-la e elogiá-la sempre que conseguir iniciar e terminar uma tarefa. Para tanto, valem recompensas como tempo extra de brincadeira ou de TV, um passeio, um presente, pontos para um benefício posterior, tempo extra com os pais etc.
A prática de atendimento dessas crianças mostra que o encaminhamento clínico leva pais e escola a acreditar erroneamente que o TDAH por si só justifica os problemas familiares, sociais e de desempenho escolar, culpando a criança pelo fracasso. No entanto, a abertura para discutir e modificar os hábitos familiares e escolares indica que as dificuldades não estão verdadeiramente na criança. A partir da disponibilidade de mudar em favor do desenvolvimento global da criança, devemos ajudá-la a entender suas dificuldades para que se sinta mais confortável com a própria diferença, aceitando e colaborando com a necessidade de modificar sua atuação. 

REFERÊNCIAS:
BARKLEY, Russel. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Porto Alegre: Artmed, 2000.
HALLOWELL, Edward M. Tendência à distração: identificação e gerência do distúrbio do déficit de atenção da infância à vida adulta. Porto Alegre: Artmed, 1999.        
   




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O PRIMEIRO DIAGNÓSTICO A GENTE NUNCA ESQUECE...

O primeiro contato com o termo TDAH é geralmente difícil e indica alguma falta de cuidado e preparo tanto da parte de quem fala quanto da de quem ouve. É sempre um grande susto!
Comigo não foi diferente em 2001...
Eu não estava satisfeita com o processo de alfabetização das minhas filhas em uma escola de linha natural e construtivista. Apesar de a metodologia ser muito bem utilizada, as professoras e eu não conseguíamos ver qualquer avanço e as meninas continuavam sendo prejudicadas pela agitação e a dispersão, que até então era entendida como característica da idade entre 6 e 7 anos. Porém, preocupava-me a passagem para a 1a. série naquelas condições.
Como possibilidade de solução, visitei uma escola tradicional muito bem conceituada na cidade do Rio de Janeiro. A primeira visita foi formal, a coordenadora do ensino fundamental me mostrou o espaço físico, conversou sobre horários, uniforme e preços e no final me perguntou por que eu queria mudar minhas filhas de escola. Contei-lhe que as meninas eram muito agitadas e que me preocupava o baixo rendimento delas, pois como educadora valorizo uma boa alfabetização.
A princípio não haveria nenhum problema para matriculá-las e seria interessante que elas conhecessem a escola. Marcamos outra visita na semana seguinte. Chegado o dia, fomos levados pela coordenadora a uma sala cheia de brinquedos, livros, papéis para desenhar. Naquele paraíso minhas filhas quase viraram a sala de cabeça para baixo. Elas haviam mexido em tudo o que encontraram pela frente, apesar dos meus duros olhares e advertências. 
Depois de observar atentamente o comportamento das meninas, a coordenadora me disse claramente que elas não poderiam ficar na escola por causa do comportamento muito inadequado. Mais uma vez sofríamos esse tipo de preconceito e o que fazer nesse caso? Invocar nossos direitos? Forçar uma aceitação? Penso que o que quer que façamos precisa ser muito bem avaliado.
Ao perceber minha indignação ela me disse que havia acabado de assistir a um evento sobre educação e saúde. Lá ela havia conhecido um médico neuropsiquiatra, dr. Fábio Barbirato, que tinha falado sobre o DDA (Déficit de Atenção, nomenclatura utilizada na época). Se eu estivesse interessada em tirar dúvidas deveria procurá-lo na Santa Casa de Misericórdia. Saí dali tonta. Eu simplesmente não sabia o que pensar. Neuropsiquiatria????
Levei dias até pegar o telefone para procurar o dr. Fábio e como a Santa Casa estava em recesso, decidi vê-lo o mais rápido possível em seu consultório. 
A primeira consulta sempre é embaraçosa, os pais querem contar toda a história da criança, mas a ansiedade atrapalha. Por causa da angústia a fala se parece um quebra-cabeça e o médico tem que montar a história.
O jovem dr. Fábio, muito empático, estava acostumado a ouvir relatos  semelhantes e nos fez perguntas específicas em sua avaliação clínica. Em seguida, ele encaminhou minhas filhas para uma avaliação neuropsicológica e nos entregou os questionários para pais e para a escola. 
Na consulta seguinte, com a avaliação e os questionários em mãos ele definiu o diagnóstico. Era hora de começarmos o tratamento eficaz e eu, mãe ansiosa, precisava de mais informações sobre o transtorno. Sensível à minha necessidade, o dr. Fábio me ofereceu vários textos sobre o assunto para que eu os estudasse e participasse ativamente do processo, possibilitando que eu me transformasse em "co-terapeuta" das minhas meninas. 


Arnete de Almeida Faria           

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Processo Diagnóstico do TDAH em crianças



Diagnosticar uma criança como portadora de TDAH não é tarefa fácil, pois o diagnóstico é fundamentalmente clínico. Além do número de sintomas apresentados por mais de seis meses, o clínico deve considerar a história de vida da criança e o comprometimento resultante de tais sintomas.
Em geral, o diagnóstico deve ser realizado por médico em equipe interdisciplinar composta por psiquiatra/neuropsiquiatra/, pediatra, psicólogo, pedagogo, psicopedagogo em minuciosa avaliação clínica que inclui relatórios constando observações de pais, cuidadores e professores sobre o comportamento da criança.  
A desatenção, a hiperatividade e a impulsividade como sintomas isolados podem ser decorrentes de vários problemas como por exemplo dificuldade na relação com os pais, colegas e amigos; sistemas educacionais inadequados; alterações sensoriais e também podem estar associados a outros transtornos comuns na infância e na adolescência. 
O Manual de Estatística e Diagnóstico (atualmente DSM-IV), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, é um sistema classificatório largamente usado porque descreve o TDAH segundo três tipos, cada qual com uma predominância de um ou outro padrão. São eles: tipo predominante desatento, tipo predominantemente hiperativo/impulsivo e tipo combinado.
No tipo desatento, popularmente conhecido como aquele que vive "no mundo da lua", observa-se com frequência a falta de atenção a detalhes e a criança sempre comete erros por descuido; dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas distraindo-se com qualquer estímulo; parece não escutar quando lhe dirigem a palavra como se não ouvissem bem; dificuldade de organizar atividades, seguir instruções e terminar deveres e tarefas; recusa de envolver-se em tarefas que exigem esforço mental constante; costuma perder objetos e brinquedos e, principal queixa de pais e professores, parece esquecer de tudo o que escutou alguns minutos depois de receber a informação. 
No tipo predominantemente hiperativo/impulsivo, conhecido como aquele que tem um "bicho carpinteiro", observa-se com frequência agitação de pés e mãos, movimentação constante na cadeira e dificuldade de permanecer sentado por mais de uns minutos; corre e escala tudo o que vê pela frente; fala demais e muito rápido; tem dificuldade para brincar ou se concentrar em atividades; não aguarda a vez na fila e nem na conversa, intrometendo-se assim nos assuntos alheios.
O tipo combinado, como o próprio nome indica, é uma combinação dos sintomas dos dois tipos anteriores.
Em qualquer dos casos, esses indivíduos apresentam dificuldades para se organizarem e planejarem suas atividades e tarefas, causando a impressão de que seu desempenho está sempre abaixo do esperado para sua inteligência.
Para cada tipo ressaltam-se comprometimentos específicos. Os do tipo desatento são mais retraídos e possuem maior prejuízo escolar; os hiperativos/impulsivos tendem a ser mais agressivos e com isso geram impopularidade e rejeição pelos colegas; os do tipo combinado apresentam maior comprometimento no funcionamento global.
Os sintomas do TDAH podem se manifestar desde o berço com sono agitado, choro fácil, intensa atividade motora, excessiva irritação em qualquer ambiente, causando assim preocupação dos pais e prejuízo significativo no desenvolvimento da criança. 
É importante ressaltar que sempre haverá algum grau de desatenção, hiperatividade e impulsividade em todo portador de TDAH.
O TDAH pode causar no indivíduo um impacto na funcionalidade do planejamento: os sintomas atrapalham o desempenho de atividades resultando em desvantagens educacional e profissional, o que causará prejuízos importantes na vida da pessoa.
 

http://www.tdah.org.br/quadro01.php

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Depoimento sobre a falta de diagnóstico



Alguns especialistas e médicos têm contestado a validade do diagnóstico do TDAH. Parecem recear que a criança seja rotulada como "aquele hiperativo" e/ou passe ajustificar seus atos pelo transtorno.
Acredito que o diagnóstico correto e criterioso é importante e necessário para que todos os envolvidos com a criança possam compreender a tríade clássica do TDAH: hiperatividade, impulsividade e desatenção. A partir daí, podem começar a pensar na intervenção o mais precoce possível. 
Sofri muito com o desconhecimento de pediatras sobre o TDAH. Em geral, após ouvirem meu relato sobre o comportamento inexplicavelmente difícil de minhas filhas, se limitavam a dizer ironicamente:
"- Ah, mãe, essa agitação toda indica que elas têm muita saúde! É melhor ter crianças assim muito levadas do que entrevadas na cama..."
Insatisfeita com a "explicação", eu marcava consulta com outro pediatra, e foram tantos entre alopatas e homeopatas... Todos diziam o mesmo e finalizavam a consulta com uma afirmação que considero covarde e injusta:
"- Se para cuidar de uma criança já é muito difícil, imagina cuidar de duas!!!  Você não está dando conta das meninas e por isso põe a culpa nelas. Vou prescrever um leite em pó para elas para facilitar um pouco. Você precisa de uma boa babá para ajudar."
Percebi que ser mãe de gêmeas passou a ser a panacéia dos pediatras que não sabiam o que dizer ao ouvir minhas queixas. Eu realmente precisava de ajuda, mas não de pessoas para cuidar das minhas filhas e sim de alguém para me auxiliar a entender o que estava acontecendo com as meninas.
Vaguei de consultório em consultório durante anos. Uns diziam que era problemas no ouvido das crianças e eu corria para o otorrinolaringologista, outros afirmavam que era o intestino e eu marcava consulta com o gastroenterologista, depois sugeriam que era alergia e eu telefonava para o alergista...
Anos se passaram sem que os sinais da hiperatividade fossem realmente observados e analisados pelos médicos consultados. Anos se passaram sem que eu tivesse um mínimo de orientação de como lidar com aquela situação. Esses anos marcaram em mim um profundo sentimento de culpa: eu não tinha competência para criar minhas filhas. Vencida, procurei uma psicóloga; afinal já estavam me convencendo de que eu era a raíz de todos os problemas... Começava nesse momento uma nova fase na minha vida que me trouxe muitos frutos. 

Arnete de Almeida

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SOCORRO! ESTOU PERDENDO MEU ALUNO!



São freqüentes as queixas de crianças muito inquietas, com excesso de energia, estabanadas, descuidadas, que vivem correndo e subindo nos objetos, interrompem todos, não esperam a vez na fila, se esquecem sempre das regras de comportamento e das tarefas cotidianas. Enfim, são crianças que perturbam muito o andamento escolar e familiar, dando trabalho e exigindo mais atenção de pais e professores.
Crianças sadias geralmente têm esses comportamentos de impulsividade, impaciência, desinibição e descuido. À medida que crescem é esperado delas a capacidade de realizar com autonomia as atividades desinteressantes ou que exigem mais esforço intelectual, já que começam a compreender a importância dos processos para alcançarem um objetivo futuro.
A continuação desses comportamentos pode indicar imaturidade que deve ser superada em determinada fase do desenvolvimento da criança, mas quando persistem, prejudicando-a nos contextos familiar, escolar e social, é momento de avaliar o que realmente está acontecendo. Esses aspectos podem apontar para a presença do Transtorno do Déficit de Atenção-Hiperatividade (TDAH).
O TDAH é uma das disfunções mais estudadas por neuropsiquiatras em todo o mundo, o que indica que o TDAH não é uma ficção nem um modismo, e sim um transtorno real do comportamento que como qualquer transtorno mental deve ser diagnosticado por médico ou psicólogo em minuciosa avaliação clínica e neuropsicológica, incluindo relatórios constando as observações dos pais ou cuidadores e dos professores sobre os padrões de comportamento da criança.
É importante a escola contribuir para o diagnóstico precoce e iniciar logo as intervenções para diminuir os danos à auto-estima, matéria prima para o tratamento e o sucesso futuro da criança. Precisamos entender que a crianças com TDAH tem um potencial difícil de acessar, mas quando posto em funcionamento os resultados são extremamente positivos.
Uma criança mal diagnosticada e não tratada corretamente corre o risco de ter sua vida marcada por fracassos e frustrações. Na maior parte dos portadores de TDAH os sintomas podem adquirir novas características, mas o acompanharão até a idade adulta, evidenciando a desigualdade entre inteligência e desempenho profissional, podendo causar no indivíduo importantes prejuízos na sua vida acadêmica, profissional e social e, com isoo, desvantagens quanto ao sucesso na realização de projetos.
Uma criança frequentemente muito agitada e/ou desatenta leva pais e professores a acreditar que se trata de falta de limite e de educação. É comum se perguntarem onde erraram e o que não está dando certo. Infelizmente, na maioria das vezes, a reação aos problemas de comportamento é impensada, levando pais e professores a tomar atitudes inadequadas como culpar a criança, castigá-la e até mesmo excluí-la.
Já bem pequenas, as crianças com TDAH percebem que não conseguem inibir suas ações somente pela vontade, daí o sentimento de desorientação e incompetência: mais do que não querer, elas não podem se controlar.
Por serem muito censuradas desde pequenas, passam a acreditar que são um peso para a família e para a escola, aumentando sua intolerância à frustração. Essas crianças precisam mais do que outras de constante reforço positivo e motivação para iniciar os comportamentos adequados. Em lugar usar estratégias exclusivamente punitivas, recomenda-se a recompensa com elogios que fortalecem os pontos fortes da criança, além de premiações que podem ir de um presente até um tempo extra de atenção, assim ela entenderá melhor o princípio de conseguir os direitos na medida em que os deveres são cumpridos.
Estratégias educacionais inadequadas para alunos com TDAH contribuem para o agravamento de comportamentos indevidos e consequentemente incentiva um quadro de alunos apáticos ou agressivos, hiperativos ou destrutivos. Desse modo, os educadores devem saber que algumas manifestações extrapolam o comportamento quando os alunos começam a apresentar reações como tiques, dificuldades de coordenação de idéias, pensamentos sem sequência lógica, devaneios, atenção dispersa entre outros.
A escola e o professor são importantes para o sucesso de um aluno com TDAH e podemos afirmar que o ideal é uma escola cuja direção, orientação pedagógica e professores sejam abertos à discussão sobre o transtorno, e que tenham disponibilidade para receber e educar alunos com comportamentos e reações pouco comuns. Essa escola deverá:
- considerar o desenvolvimento global da criança,
- favorecer a comunicação casa-escola abertamente e
- receber profissionais ou especialistas dispostos a discutir a melhor forma de adaptar o aluno com TDAH ao programa educacional e metodologia adotada.
Devemos lembrar que não existe uma única técnica ou abordagem pedagógica capaz de anular as conseqüências do TDAH.