terça-feira, 30 de abril de 2013



O PRAZER DO ESTRESSE          

Uma das coisas contra a qual eu mais lutei foi chegar quase sempre atrasada nos compromissos, ou seja, a dificuldade em cumprir horários.

Em casa somos três mulheres multifuncionais. Sou mãe, esposa, filha, amiga, dona-de-casa, professora, fonoaudióloga, empreendedora etc etc. Minhas filhas estudam numa escola técnica, fazem curso de inglês, psicoterapia, são baladeiras, frequentadoras de academia, etc etc.

Enfim, nossa vida é uma correria para atendermos aos vários compromissos em diferentes lugares. E o que acontece? Estamos sempre atrasadas. Costumo dizer que isso acontece porque temos tendência de procrastinar, ou seja, de adiar tudo sempre!

Um dia, afobada, colocando os materiais na bolsa, perguntei a M.:
- Por que todos os dias nos atrasamos e vivemos nessa correria?
-  Porque a gente gosta, mãe. É mais emocionante assim!
A partir daí, pus-me a pensar sobre esse “gostar” e essa “emoção” de lutar contra o tempo, de brincar de controlar o tempo como se eu fosse o deus Cronos. Inúmeras vezes acreditei que seria capaz de fazer em 6 minutos um percurso que leva, no mínimo, 15 minutos! Eu teria que ser teletransportada para conseguir essa façanha.

Num desses cursos de Educação à Distância sobre administração do tempo li que a ideia de trabalharmos muito melhor sob pressão  é um mito criado para racionalizar a preguiça e a tendência à procrastinação. Huumm, a procrastinação é uma das características do TDAH... Diz o texto que aquele que administra o tempo não vive numa corrida incessante contra o tempo e geralmente produz muito mais, aproveita muito mais o tempo. Mas o que acontece com quem “gosta” da viver sempre atrasado, correndo contra o tempo?

Visitei a Filosofia e encontrei nas palavras da psicanalista e escritora Maria Rita Khell que o uso do tempo está submetido às transformações culturais, às diferenças históricas. O uso cotidiano do tempo  pode ser muito desorganizado, mas desde a Revolução Industrial, o tempo passou a ser marcado pelo relógio, ou seja, o tempo do trabalho. Desde então, o tempo humano nunca esteve inteiramente à disposição dos indivíduos. E Khell vai tornando mais complexa a reflexão inesgotável sobre o tempo...

Resolvi recorrer à Neurociência para entender melhor esse assunto. Lendo o livro Sexo, drogas, rock’n’roll... e chocolate: o cérebro e os prazeres da vida cotidiana, da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, descobri que minhas filhas, eu e todos os que curtem essa pressa sentimos que lutar e até mesmo negar a passagem do tempo nos provoca a euforia, efeito da produção de cortisol – hormônio do estresse. Escreve Herculano-Houzel: “Pode parecer um contrassenso o cérebro gostar de experiências estressantes, mas a euforia pós-estresse tem sua função (...)  O estresse voluntário e previsível, por sinal, é o que tem maior chance de causar prazer.” (p. 23)
Para a autora, a sensação de estresse voluntário, e passageira, nos deixa como recompensa a prazerosa sensação de ter vencido uma batalha, pois o estresse só ocorre naquilo que não podemos controlar, mas desejamos controlar. Assim como a passagem inexorável do tempo...  Maravilhoso esse encontro da Filosofia com a Neurociência.

Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga - RJ

sábado, 17 de novembro de 2012



Quem não se comunica, se trumbica!!

A  Arte da Conversação

- Parte 2 -

São muitos os estudos nas mais diversas áreas do saber que tratam da importância da comunicação humana, a mais complexa entre os seres vivos.

A conversação é uma atividade colaborativa, uma forma de interação social e cognitiva com objetivos e finalidades a serem alcançados. Por isso, a conversação é argumentativa, pois pela conversa pretendemos:

        -  atuar sobre o outro,
        -  convencer o outro,
        -  construir e transmitir conhecimento,
        -  modificar o comportamento do outro.

Para interagirmos por meio da conversação, é preciso que tenhamos alguns elementos em comum:  a língua, a cultura, o interesse, o contexto, entre outros. Dissemos acima que a conversação é uma atividade social e cognitiva, de aí a importância da compatibilidade de alguns mecanismos como a percepção, a atenção e a memória.

Imaginem que marquei um almoço para conversar com alguém. Falamos a mesma língua, o português, e temos um assunto do nosso interesse para discutir. Até aí, tudo bem.  Escolhemos a mesa, nos sentamos, pedimos água mineral e começamos a nossa tão esperada conversa. No início tudo vai muito bem, porém, com o desenvolver do tema, observo uma confusão de ideias, meu interlocutor parece ter dificuldade de controlar o próprio corpo na cadeira, levanta-se várias vezes para fazer algo importante, mexe no celular constantemente, muda de assunto sem me avisar,com frequência  chama o garçom para fazer perguntas, enfim, tenho a sensação de estar vivendo um caos!  Tudo o que planejei para aquele almoço com aquela pessoa vai por água abaixo. Muito se falou, mas nada se disse. Resultado: uma tremenda frustração!

Ora, conversar com alguém que não controla bem sua atenção - e consequentemente sua memória-, é impulsivo e tem dificuldade de manter-se parado na cadeira nos dá a sensação de ter entrado numa guerra sem ter sido avisado, não é mesmo?

Quem convive com pessoas com TDAH sente-se sempre como um desavisado numa guerra. Desse modo, é importante aprendermos que a arte da conversação tem algumas regras que devem ser cumpridas. A seguir apresentamos sugestões para hábitos positivos de comunicação pela conversação:


1º) Respeite os turnos de fala. Em nossa sociedade é muito comum todo mundo falar ao mesmo tempo, porém, quando um dos falantes tem TDAH esse desrespeito é muito mais intenso, causando um colapso na comunicação. Devemos nos lembrar de que no TDAH a impulsividade sempre se impõe nas relações sociais, fazendo com que a pessoa opine ou responda perguntas antes de elas serem concluídas, interrompendo frequentemente os outros por não conseguir aguardar sua vez de falar. Procure modular com: “Espere sua vez”, “Ainda não terminei de falar”. Alterne com pequenos sinais combinados, tais como tocar-lhe levemente o braço ou fazer o sinal de “Pare!”.


2º) Contato visual sempre! Dê o exemplo e esteja inteiro em tudo o que você faz. Ofereça toda sua atenção à pessoa com quem você conversa: distrair-se ofende o interlocutor. Intercale sua fala com perguntas sobre o que você disse ao seu interlocutor com TDAH, assim você poderá comprovar se ele entendeu a importância de estar focado.

3º) Não seja imediatamente reativo ao ser atacado: ouça cuidadosamente, avalie o que você ouviu e, então, discorde calmamente, usando bons argumentos. E se você não encontrar argumentos bons o suficiente, expresse seu sentimento e informe que em outra ocasião você voltará a conversar sobre o assunto. Não permita o surgimento do famoso “bate-boca”, que será estimulado pela pessoa com TDAH!

4º) Não tente adivinhar o que o outro pensa. Nesse caso, as atividades de adivinhação sempre são fracassadas. Então, pergunte!

5º) Sempre comece a conversa de um modo amistoso. Não critique o tempo todo, comece apontando os aspectos positivos para depois apontar os negativos. Não se prenda a todos os erros, pois ninguém é perfeito; ignore os pequenos defeitos. Mantenha o foco na questão que é realmente imprescindível discutir.

6º) Discuta um assunto de cada vez e não permita o desvio do tema da conversa. Uma vez decidido o assunto a ser discutido, lute para levá-lo até o fim, pois só assim se poderá conseguir algum benefício. Isso é especialmente importante para a pessoa com TDAH que frequentemente tem dificuldade para se concentrar. Uma boa dica é variar a modulação da voz e o gestual do corpo, ser objetivo, direto e breve na fala, usando frases mais curtas. Se você se prolongar muito numa conversa - tipo sermão - saiba que já na quinta palavra seu interlocutor não o estará mais escutando.

7º) Observe o momento adequado para finalizar a conversa ou para mudar o assunto. Para isso, dê pistas: “mudando de assunto..., e por falar nisso..., antes que eu me esqueça...” Não permita saltos de um assunto a outro fazendo da conversa uma salada mista! A pessoa com TDAH adora essa confusão porque ela tende a falar muito e assim ela foge do esforço intelectual de manter-se no mesmo assunto.

8º) Mantenha a mente aberta para diferentes pontos de vista e não tire conclusões precipitadas. Por mais confuso que pareça o discurso de uma pessoa com TDAH, esteja certo que sempre surgem ideias e perspectivas muito interessantes, com muito potencial de  contribuição.

9º) Reconheça as próprias falhas nas suas ações e na sua argumentação. Não seja o dono da verdade nem o Sr.  Perfeição. Em geral, a pessoa com TDAH tem sua autoestima baixa, por isso quanto mais nos colocamos como perfeitos e superiores, mais distante ela se sentirá do ideal.

10º) Questione e discuta a ação (o problema), não o sujeito (o autor)





Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga
Rio de Janeiro



A reprodução deste texto é permitida com a condição de que a fonte seja citada.

quinta-feira, 3 de maio de 2012




Quem não se comunica se trumbica!
                                A comunicação em famílias com TDAH.

- Parte 1 -

 Durante muitos anos, os sintomas do TDAH foram considerados como pertencentes a uma fase do desenvolvimento da criança. Impulsividade, extrema agitação, pouca tolerância à frustração, desatenção, impaciência, desobediência eram vistos como transitórios e passariam na adolescência, porém, com o tempo, muitas famílias foram se dando conta de que tais sintomas persistiam. 
Em geral, essas crianças e adolescentes  apresentam grande dificuldade de frear e inibir seus impulsos,  assim, exigem muita atenção e energia dos pais, podendo provocar o esgotamento físico e mental daqueles que as cercam. Muitos pais experimentam um estresse e uma ansiedade constantes, o que os afastam de uma boa avaliação sobre sua própria conduta e a de seu filho. Não raro, vemos mães irritadas ao extremo, algumas vezes certas do seu descontrole sobre o filho e, consequentemente, tomadas pela frustração e o sentimento de impotência, pois por mais que elas  apliquem medidas disciplinares aprendidas durante toda sua vida, e a das de outras mães, nada surte efeito com o filho. Somem-se a esse quadro as frequentes reclamações feitas pela escola em razão do mau comportamento da criança e/ou o baixo rendimento escolar.

Não há pai nem mãe que aguentem tal pressão!!

ALTERAÇÕES ASSOCIADAS AO TDAH

Então, o que fazer, neste caso?
Não há resposta definitiva ou única para essa pergunta, porém, cabe lembrar a complexidade de diagnosticar e tratar o TDAH não somente pelos sintomas primários de desatenção ou hiperatividade, mas, sobretudo, pela  alta frequência de comorbidades psiquiátricas  apresentadas pelos pacientes.[i]

E o que são essas tais comorbidades? São outros transtornos psiquiátricos associados ao TDAH. Estudos clínicos sobre o TDAH indicam que entre 50% a 80% dos casos apresentam alguma comorbidade, sendo a mais frequente o Transtorno Desafiador Opositivo (TDO) que se caracteriza por um persistente comportamento negativista, hostil, desafiador, desobediente observado em crianças de idade escolar, principalmente nas interações com  adultos e figuras de autoridade.  

É importante lembrar que quando é temporário, o comportamento opositivo faz parte do desenvolvimento normal da criança e até aumenta na adolescência. O processo de adolescer (entrar na fase da adolescência) é marcado pela finalização da fase infantil e pela busca da conquista da independência e da autonomia, ficando muitos dos valores da família excluídos do processo. Nesse momento, o jovem fica mais confuso com os novos papéis que lhe imputam e rebelde diante das figuras de autoridade, ele questiona e contesta as regras e os limites em busca da própria identidade, e a comunicação entre os pais e filhos pode ficar bem difícil.
No entanto, com o tempo, essa rebeldia típica da idade passa e é esse dado que diferencia a crise da adolescência  do Transtorno Desafiador Opositivo, que é persistente, causa prejuízos importantes na vida escolar, social e familiar, e deve ser diagnosticado por médico.   


FORMAS DE COMUNICAÇÃO EM FAMÍLIA

Estudos afirmam que há três formas de comunicação parental:

1)      Comunicação aberta, onde todos se sentem à vontade para manifestar seus sentimentos e questionamentos, visando ao compartilhamento e orientação de conduta;

2)      Comunicação superficial, onde  os jovens não confiam na receptividade dos pais que se mostram resistentes à chegada da adolescência de seus filhos. Esses pais constantemente exigem provas da responsabilidade do filho, porém, não estão abertos a um diálogo sincero de modo a orientar o jovem em suas demandas e aceitar suas limitações;

3)      Comunicação fechada que é marcada pelo peso da autoridade e a ameaça dos pais.


Nas duas últimas formas de comunicação, predominam os assuntos cotidianos sem espaço para os sentimentos dos jovens. Deve-se acrescentar que pesquisas indicam que a dificuldade de comunicação é bem  maior com os filhos do que com as filhas.

Todas essas informações são importantes e compreensíveis quando usamos a lógica racional, entretanto, no cotidiano familiar e emocional elas desaparecem e dão lugar a um relacionamento estressante em decorrência de uma comunicação problemática, marcada por irritação, gritos, afrontas, castigos, ameaças.


O QUE FAZER?


Creio que a primeira medida é considerar a possibilidade de que os tradicionais padrões de comportamento e as clássicas medidas disciplinares podem não funcionar com seu filho. Pessoas com o diagnóstico de TDAH, em geral, se sentem muito estimuladas num ambiente de confrontos e conflitos, incentivando as discussões acaloradas, os enfrentamentos violentos, os gritos, podendo chegar até à violência física. Assim, é fundamental que os pais façam uma sincera avaliação de seus padrões e modelos de comportamento e se abram para novas reflexões e alternativas, lembrando-se sempre de entender as características do filho e jamais compará-lo com os outros.

No relacionamento familiar, penso que o principal é:

Ø  Conhecer honestamente seu filho;
      Ø  Não esperar dele o que ele não pode oferecer por causa dos sintomas principais do TDAH;
      Ø  Ouvi-lo sempre com muita atenção;
      Ø  Proporcionar ocasiões nas quais ele se exponha sem medo;
      Ø  Ter sensibilidade para perceber o momento adequado para que ele converse com você;
      Ø  Não repreendê-lo impulsivamente quando ele relata alguma debilidade ou conta algo inesperado;
      Ø  Criar um clima de confiança e apoio;  
      Ø  Respeitar os momentos de silêncio do seu filho.

 Podemos pensar que nossos filhos nos contam tudo, mas temos que saber que não o fazem, pois eles buscam preservar a própria intimidade, o que faz parte do processo de independização. 


A ARTE DA NEGOCIAÇÃO

Com respeito à comunicação, um dos recursos que oferece melhor resultado é a negociação, que ajuda a criança a ter responsabilidades e entender que o mundo funciona à base de trocas. A negociação possibilita à criança abandonar sua posição infantil em que recebe imediatamente tudo o que deseja, e a preparar-se para tolerar as frustrações tão comuns no mundo adulto. Nesse momento, a criança começa a dar valor e a ter necessidade de corresponder aos benefícios dados pelos pais e pela sociedade.

No entanto, negociar não é tarefa fácil!! Principalmente em família, quando todos estão habituados a uma linguagem de gritos, ameaças e castigos fica mais trabalhoso promover uma mudança, mas não é impossível.

No próximo texto, escreverei sobre a Arte da Negociação, oferecendo orientações que podem ajudar a melhorar o relacionamento com seu filho.

Aguardem!

Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga
Rio de Janeiro



A reprodução deste texto é permitida com a condição de que a fonte seja citada.




[i] Dificuldades no diagnóstico de TDAH em crianças. Isabella G. S. de Souza, Maria Antônia Serra-Pinheiro, Didia Fortes, Camilla Pinna. J. Bras. Psiquiatr. 56, supl 1; 14-18, 2007

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Feliz 2011!!!

Querido leitor (a):

Para você ganhar um belo Ano Novo
não precisa fazer listas de boas intenções para esquecê-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependimento
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem e tudo se transforme em claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão fresco, e direitos plenamente respeitados, começando pelo direito sublime à vida.

Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem que merecê-lo, tem de fazê-lo novo.

Não é fácil mas tente, experimente, invente, surpreenda! Não esmoreça!

Porque é dentro de você que o Ano Novo repousa e espera desde sempre.



Muito obrigada por sua atenção e confiança durante esses anos e...


Um 2011 maravilhoso para você!


Um abraço carinhoso!


Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga
CRFa 13.622/RJ





Dr. Paulo Mattos e o TDAH - De frente com Gabi - 05/09/10




O médico psiquiatra Paulo Mattos é um pesquisador sério e tem um denso currículo. Em síntese, ele é doutor em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor adjunto de Psiquiatria do Departamento de Psiquiatria da UFRJ, coordenador do Grupo de Estudos do Déficit de Atenção-GEDA-IPUB/UFRJ e presidente do Conselho Científico da ABDA (Associação Brasileira de Déficit de Atenção).
Sou leitora assídua de seus artigos e acompanho seu trabalho com o TDAH há quase 10 anos. Nessa primeira parte da entrevista com a jornalista Marília Gabriela, em seu programa no SBT, o dr. Paulo Mattos explica de forma muito clara em que consiste o TDAH. Vale a pena assistir à entrevista. 


Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga
CRFa 13.622/RJ



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Projeto de lei dispõe sobre o diagnóstico e tratamento do TDAH e dislexia na educação básica

Quando iniciei minha graduação em Fonoaudiologia eu tinha um propósito muito claro resultante de minha convivência com o TDAH: possibilitar um diálogo entre o transtorno e a Fonoaudiologia.
Na realidade, de uma perspectiva empírica eu inferia que além do médico, psicólogo e psicopedagogo, a presença do fonoaudiólogo era muito importante e não podia se restringir aos casos em que havia a dislexia associada. Eu observava em muitos casos algumas alterações na comunicação e na linguagem, sobretudo na conversação, desses indivíduos. Foi justamente a partir dessa percepção que desenvolvi minha monografia da graduação. 
Assim sendo, reproduzo abaixo, com satisfação, informações importantes publicadas no Boletim no. 33, 27/12/2010, do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa), sobre a atenção que o TDAH vem demandando legalmente e, em especial, o reconhecimento da importância do fonoaudiólogo na equipe interdisciplinar no diagnóstico e tratamento do TDAH:

Dislexia e TDAH avançam na Câmara

O Projeto de Lei 7.081/2010, que trata da prevenção, diagnóstico e tratamento da Dislexia e do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), foi aprovado na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados no dia 15 de dezembro. A aprovação foi feita na forma do substitutivo da relatora, deputada Rita Camata (PSDB-ES), com avanços no sentido da interpretação da Fonoaudiologia.
A sessão plenária contou com pedido de vista do texto pelo deputado Dr. Paulo César (PR-RJ). No entanto,  a pós a fala da relatora e manifestações de apoio aos deputados Alceni Guerra (DEM-PR), Darciso Perondi (PMDB-RS), Omar Terra (PMDB-RS), Elcione Barbalho (PMDB-PA) e Geraldo resende (PMDB-MS), o pedido de vistas foi retirado e o substitutivo foi aprovado por unanimidade por todos os parlamentares presentes. Agora o PL segue para a Comissão de Tributação e Finanças onde deve ser novamente apreciado.

Outro aspecto importante no Projeto de Lei é sobre a importância da capacitação dos professores da educação básica sobre o TDAH e a dislexia. Como tenho afirmado, o professor é o nosso maior aliado na prevenção, no diagnóstico e intervenção precoces, pois é ele quem observa alterações e busca discernir o que pertence ao âmbito do pedagógico e o que pertence ao âmbito da saúde. No relatório do PL 7081 estabelece que:

"O Projeto de Lei no. 7-081, de 2010, de autoria do Senador Gerson Camata, propõe que o poder público mantenha programa de diagnóstico e tratamento de estudantes da educação básica com dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), por meio de equipe multidisciplinar composta, entre outros, por educadores, psicólogos, psicopedagogos, médicos e fonoaudiólogos.
A proposição estabelece que as escolas de educação básica devem assegurar às crianças e aos adolescentes com dislexia e TDAH o acesso aos recursos didáticos adequados ao desenvolvimento de sua aprendizagem e também indica que os sistemas de ensino devem garantir aos professores da educação básica cursos sobre o diagnóstico e o tratamento da dislexia e do TDAH. Finalmente, o projeto menciona que a lei deverá entrar em vigor em 1o. de janeiro do ano subsequente ao de sua publicação."


O PL no. 7081, de 2010 e o substitutivo a esse PL podem ser lidos na íntegra no seguinte endereço:
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/817148.pdf

Eu gostaria de ressaltar que no substitutivo ao PL no. 7081 o Congresso Nacional decreta:

Art. 1o. O poder público deve manter programa de identificação precoce, diagnóstico, tratamento e atendimento educacional escolar especializado para estudantes da educação básica com dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Art. 2o. A identificação precoce, o diagnóstico, o tratamento e o atendimento educacional escolar especializado de que trata o art. 1o. devem ocorrer por meio de equipe multidisciplinar, da qual participarão, entre outros, educadores, psicólogos, médicos, fonoaudiólogos e especialistas em psicopedagogia.





Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga
CRFa 13.622/RJ

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O TDAH pode ser uma invenção dos laboratórios farmacêuticos?


Em vários lugares e eventos ouvi alguns leigos e profissionais afirmarem que o TDAH “é uma doença inventada pelos laboratórios farmacêuticos”, possivelmente porque muitos médicos que estudam o transtorno recebem apoio da indústria farmacêutica. Considerando a gravidade dessa afirmativa, destaco as ideias principais e alguns trechos da carta de esclarecimento sobre o assunto redigida pelos psiquiatras Dr. Paulo Mattos, Presidente do Conselho Científico da Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), e Luiz Augusto Rohde, Vice-presidente do Conselho Científico da ABDA. 
A carta pode ser lida em sua íntegra no site da associação: http://www.tdah.org.br/carta_tdah2.pdf

1) O que hoje denominamos de TDAH é descrito por médicos desde o século XVIII (Alexander Crichton, em 1798), muito antes de existir qualquer tratamento medicamentoso. No inicio do século XX, o Dr. George Still publicou um artigo científico numa das mais respeitadas revistas médicas até hoje, The Lancet. A descrição de Still é quase idêntica a dos modernos manuais de diagnóstico, como o DSM-IV da Associação Americana de Psiquiatria. Isso significa que o TDAH não é uma “mera conseqüência da vida moderna”.

2) Os sintomas que compõem o TDAH são observados nas mais diversas culturas. Se fosse simplesmente  um  comportamento secundário ao modo como as crianças são educadas, ou ao seu meio sociocultural, não seria possível que a descrição fosse  praticamente a mesma em locais tão diferentes.

3) Se o TDAH não fosse um transtorno mental, mas somente “um jeito diferente de ser”, como poderia ser explicado que os portadores, segundo os dados de pesquisas científicas, têm maior taxa de abandono escolar, reprovação, desemprego, divórcio e acidentes automobilísticos, e maior incidência de depressão, ansiedade e dependência de drogas?

4) Se o TDAH fosse “uma invenção da indústria farmacêutica”, poderíamos esperar que a Organização Mundial de Saúde – órgão internacional máximo nas questões relativas à saúde pública sem qualquer vinculação com a indústria farmacêutica  – listaria o transtorno como parte dos diagnósticos da Classificação Internacional das Doenças não só na sua última versão (CID-10) como nas anteriores (CID-8 e CID-9)? Vide o site http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm

5) Se o TDAH fosse secundário ao modo como os pais educam seus filhos, por que motivo as famílias biológicas de crianças com TDAH que foram adotadas têm prevalências (taxas) de TDAH bem maiores do que aquelas encontradas nas suas famílias adotivas? A única explicação possível é que seja um transtorno com forte participação genética.

6) Mais de 200 artigos científicos já foram publicados demonstrando alterações no funcionamento cerebral de portadores de TDAH. Os achados mais recentes e contundentes são oriundos de centros de pesquisa como o National Institute of Mental Health dos EUA impossibilitados de qualquer contato com a indústria farmacêutica.  O fato de não termos uma alteração cerebral que seja “marca registrada” do TDAH não invalida nem a sua base neurobiológica, muito menos a sua existência. Se fosse assim, não existiria a Esquizofrenia,  o Autismo, a Depressão, o Transtorno de Humor Bipolar entre outros, já que nenhum desses
têm uma alteração que seja “marca registrada” da doença. 

Em todos os âmbitos da nossa vida, todas as informações que nos chegam devem ser sempre pesquisadas e refletidas com muito cuidado. Hoje em dia, os meios de divulgação de informações são abrangentes e democráticos, porém poucos divulgadores se preocupam em comprovar a veracidade das informações que transmitem. Com isso, o leitor fica suscetível ao erro de opinião e acaba se transformando em um multiplicador de ideias equivocadas. 

Neste caso, os médicos Mattos e Rohde nos orientam a acessar fontes realmente seguras e científicas sobre o TDAH (por exemplo: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed) antes de formarmos uma opinião sobre o assunto:  "No nosso caso, a evidência científica é implacável: o TDAH é um dos transtornos mais bem estudados da medicina e com mais evidências científicas que a maioria dos demais transtornos mentais." 

Arnete de Almeida Faria



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O TDAH AO LONGO DA VIDA

       Tenho falado sobre os sinais e as implicações do TDAH na infância. Porém, uma criança com TDAH será um adulto com TDAH! A diferença em uma ou na outra faixa etária ficará na adequada avaliação diagnóstica e na intervenção eficaz. É claro que como mãe de crianças com TDAH acabei identificando em mim vários dos sinais do transtorno. Tudo começou com o diagnóstico delas. Inicialmente, senti muito claro que nada daquilo estava relacionado a mim, apesar do médico me afirmar sobre o caráter genético hereditário do TDAH. Comecei a procurar em pais e avós os sinais que os responsabilizassem pela transmissão. 
       Aos poucos, na terapia de orientação a pais, fui descobrindo que eu tinha muitas das dificuldades das minhas filhas e, por isso, não conseguia realizar as tarefas propostas pela psicóloga quanto a mudança do comportamento delas. Claro! É muito mais fácil ver as dificuldades dos outros do que as próprias. A situação se agravou quando percebi que o meu comportamento dificultava a terapia que fazíamos para beneficiá-las. Pensei: "Assim como elas, sou muito desatenta e me consumo com meus próprios pensamentos, procrastino as tarefas, sempre flutuo entre a impulsividade e a passividade, tenho dificuldade de tomar iniciativas, de estabelecer prioridades, de me organizar para o trabalho e não interrompê-lo. A baixa tolerância à frustração  me impede de me lançar em algo com medo de não dar certo. Tenho muita energia e ideias brilhantes que da mesma forma que surgem, desaparecem deixando uma sensação amarga de decepção." Lembrei-me que, quando criança, eu agia exatamente como elas e por isso sofria demais, pois meus pais e professores não tinham noção do que acontecia comigo. A terapia era a dos castigos intensos...
        A partir desse momento de autodescoberta e de mapeamento dos meus prejuízos funcionais, decidi que para ajudá-las eu precisaria me ajudar. Para que a psicoterapia tivesse um bom resultado, eu precisaria inicialmente ser a função executiva das minhas filhas, pois era necessário que elas conhecessem nelas os sinais  e as consequencias do TDAH para, então, aprenderem a controlar o comportamento a partir de instruções dos adultos de modo que, gradativamente, novos padrões fossem internalizados.
        O passo seguinte foi buscar o meu diagnóstico e os procedimentos terapêuticos adequados. Só não foi mais difícil porque em função das minhas dificuldades de lidar com minhas filhas desde o nascimento, iniciei um tratamento de psicanálise que me ajudou a entender alguns dos meus movimentos e sentimentos. Mas assim como meus pais e professores, a psicanalista não entendia meu comportamento e o justificava com as seguintes expressões: -É da ordem do desejo, ou, - Você se boicota.  
É, foi duro mas me fortaleceu e me ajudou a não ter tanto medo dos meus limites. E ali estava eu: tão prejudicada pelo TDAH quanto minhas filhas. E agora? 
        Na orientação a pais, a psicoterapeuta sempre dizia: "Mudança de comportamento é algo muito difícil de realizar". Essa afirmativa me caiu como um desafio: difícil mas não impossível. Descobri nesse movimento que eu era uma pessoa resiliente. Resolvi ler, estudar, fazer cursos e participar de eventos sobre o assunto. Acreditei que conhecimentos sólidos seriam meus aliados nessa luta, por isso abracei uma nova profissão, a Fonoaudiologia. 
       Quanto a nós? Bem, continuamos muito atentas e monitorando nosso comportamento diariamente.


Arnete de Almeida Faria
Fonoaudióloga
CRFa 13.622-RJ

quinta-feira, 8 de julho de 2010

TDAH e competência comunicativa

        Na minha experiência com os portadores de TDAH, sempre me intrigou o modo como esses sujeitos conversavam no cotidiano. Eu observava uma certa confusão e ficava com a sensação de que muito da conversa havia se perdido. Em vários momento, os participantes falavam ao mesmo tempo, mudavam de assunto sem avisar, faziam pausas por um tempo muito longo como se estivessem desinteressados do assunto. Em suma, parecia que a conversa dificilmente era bem sucedida.
         Fiquei curiosa com essas observações, pois hoje em dia saber conversar é fundamental na vida das pessoas. Saber o quê, como, onde, quando e com quem conversar pode definir um perfil acadêmico, social e profissional! Como dizia o velho guerreiro Chacrinha: "Quem não se comunica, se trumbica!"
        Como poderá ser o futuro profissional de um repórter que sempre se distrai enquanto o entrevistador responde à pergunta, ou por impulsividade frequentemente faz outra pergunta antes de ouvir a resposta completa? Como poderá ser o futuro de um psicólogo que constantemente fala em demasia, e interrompe e se intromete na fala dos pacientes?
      Essas perguntas que rondaram meus pensamentos durante alguns anos me levaram a questionar se a competência comunicativa pode estar prejudicada nos portadores de TDAH. Caso afirmativo, por quê? E o onde se insere, nesse caso, a Fonoaudiologia, ciência que tem como objeto de estudo as alterações e patologias que acometem a comunicação humana?

     A partir dessas indagações, iniciei minha pesquisa teórica sobre o assunto para a minha monografia de conclusão do curso de graduação em Fonoaudiologia. Ontem, defendi minha monografia com sucesso e indicação para realizar a pesquisa de campo. Com isso, espero contribuir com novos achados sobre o TDAH.  


        Arnete de Almeida Faria 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mudanças no TDAH no decorrer do desenvolvimento

               Um dos aspectos mais inquietantes do TDAH para os pais é que ele evolui com o crescimento da criança. O que funcionou aos 6 anos pode não funcionar aos 16 anos. Até 80% das crianças em idade escolar com diagnóstico de TDAH continuarão a ter o transtorno na adolescência e, entre 30 a 65% continuarão a apresentá-la na vida adulta, dependendo de como o transtorno é definido em cada caso particular. Os pais percebem o problema quando a criança tem três ou quatro anos de idade, às vezes antes disso. Algumas crianças com TDAH, entretanto, podem ser difíceis de serem cuidadas por serem muito ativas, irritáveis e temperamentais desde o início da infância. Outras podem não ter demonstrado essas dificuldades até ingressar na pré-escola ou mesmo no ensino fundamental. No último caso, a criança, provavelmente, apresentou algumas características do transtorno anteriormente, mas não demonstrou problemas que interferissem na realização das tarefas de desenvolvimento relativamente simples.
             Crianças com TDAH não são todas iguais. Algumas exibem padrões diferentes de comportamento, desenvolvimento e risco tardios. Algumas apresentarão apenas o TDAH; outras terão esse transtorno aliado a problemas de aprendizagem, agressividade, conduta anti-social e péssima relação com os amigos. Todas compartilham o problema da habilidade reduzida de inibir seu comportamento e de manter esforços para sustentar atividades. E, com certeza, todas as crianças necessitam de nossos cuidados, apoio, orientação, educação e amor, embora possam ser um desafio para serem criadas.

(Texto do Dr. Russel A. Barkley no livro Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH): guia completo para pais, professores e profissionais de saúde)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Você é uma pessoa resiliente?


Após receber o diagnóstico de TDAH para minhas filhas, foi iniciada a terapia interdisciplinar: acompanhamento médico e terapia psicológica na linha da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) para as meninas, e orientação a pais e à escola, feita pela psicóloga. Durante o processo terapêutico, deparei-me com várias questões difíceis, entre elas a dificuldade de lidar com a frustração e com as adversidades.
Eu andava com aquela nuvenzinha preta em cima da minha cabeça, meio pessimista, tomada por pensamentos invasivos, com pouca fé no futuro, me sentindo muito triste e sozinha.
Nesse momento, fui apresentada à Resiliência, termo muito utilizado na Física e na Engenharia, porém adotado pela Psicologia, Educação, Sociologia.
       
No dicionário do Houaiss, resiliência é definida como:
- propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica;
- capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Tomado pela Psicologia para substituir os termos invencibilidade e invulnerabilidade utilizados até então, a resiliência passou a ser definida como:
- a capacidade do ser humano para lidar com as adversidades da vida, superá-las e ser transformado por elas;
- conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que possibilitam ter uma vida sadia num ambiente adverso.

A resiliência é uma imunidade psicológica, pode ser inata ou desenvolvida no ser humano e varia de acordo com as circunstâncias, dessa forma, a resiliência deve ser fomentada e promovida, caso contrário, diante de fatores de risco, o indivíduo pode desenvolver uma psicopatologia.

Os fatores de risco, entendidos como qualquer característica ou qualidade da pessoa que vem unido a uma elevada probabilidade de prejuízo à saúde, devem ser combatidos pelos fatores protetores (competência social, temperamento fácil, inteligência, autonomia, auto-estima etc) que atuam como escudo e favorece um indivíduo a reduzir efeitos ou circunstâncias desfavoráveis.

Certas características da pessoa possuem uma associação positiva com a possibilidade de enfrentar fatores de risco e de aproveitar os fatores protetores, sendo assim resiliente. Algumas dessas características são precoces na criança, tais como: autonomia, comunicação fácil, empatia, competência cognitiva e em resolver problemas, controle de impulsos, capacidade de atenção e concentração. Devemos lembrar que as últimas 3 características são, em geral, disfuncionais nos portadores de TDAH, fazendo-se necessário que essas pessoas aprendam a desenvolver a resiliência, pois se as demais qualidades forem corretamente articuladas essas pessoas poderão usufruir dos benefícios resiliência. 
A resiliência está diretamente relacionada com o vínculo afetivo de cada dinâmica familiar ou social, composta por pessoas que nos fazem sentir queridas, úteis e importantes. Segundo GROTBERG (1995), os atributos considerados como fontes de resiliência podem ser verbalizados em 4 condições:

1) EU TENHO: 
-pessoas ao meu redor nas quais eu confio;
-pessoas que me mostram o que é certo e me ensinam a fazer coisas para que eu tenha autonomia;
- pessoas que me ajudam quando necessito.

2) EU SOU:
- uma pessoa amada e querida pelos outros;
- uma pessoa capaz de fazer o bem;
- uma pessoa responsável e respeitada;
- uma pessoa que confia que as coisas vão dar certo.

3) EU ESTOU:
- certo de que tudo vai sair bem;
- rodeado de amigos e colegas que me apreciam;
- disposto a me responsabilizar pelos meus atos;
- triste, mas com a certeza de encontrar apoio.

4) EU POSSO:
- contar para os outros sobre assuntos e dificuldades que não entendo e me assustam;
- encontrar caminhos para resolver os problemas que surgem;
- me controlar e esperar o momento certo de falar e/ou agir;
- encontrar alguém que me ajude quando eu preciso.

A pessoa resiliente tem forte senso de identidade, auto-estima positiva, independência, autocontrole, confiança no futuro, capacidade de comunicação e de demonstrar habilidades sociais. É uma pessoa otimista, persistente e esforçada, capaz de pensar de forma crítica e descobrir soluções para os problemas que se apresentam, procurando adaptação porque é flexível e quando as experiências são muito negativas, se engaja numa distância adaptativa da situação para buscar ajuda.

A resiliência é contingente, imprevisível e, sobretudo, dinâmica. Na nossa convivência familiar, nesse processo de descobrir e aprender a lidar com o TDAH, vimos aprendendo a ser pessoas resilientes, flexíveis como o bambu que enverga mas não quebra!!

E você? É uma pessoa resiliente?
Pense nisso!

Arnete de Almeida Faria   

  

domingo, 7 de março de 2010

Gerência de desempenho escolar

Os sintomas do TDAH podem se manifestar desde o berço com sono agitado, choro fácil, intensa atividade motora, excessiva irritação, porém, é na escola que alguns sintomas são evidenciados e podem levar pais e professores a considerá-los dentro do padrão de normalidade. Por volta dos seis e sete anos de idade, época de alfabetização, os sintomas se agravam em razão de atividades que exigem mais atenção por um período longo e einibição do comportamento inadequado. 
A partir do segundo ano do ensino fundamental, o conteúdo programático se faz mais aprofundado e passam a ser avaliados o desempenho em deveres de casa e provas que exigem domínio da memorização, flexibilidade em resolução de problemas e maior atenção a detalhes.
Antes de qualquer procedimento, pais e professores devem se informar sobre o transtorno, ter consciência dos próprios limites, buscar apoio mútuo e, principalmente, ouvir a criança, estabelecer empatia com ela, incentivar e valorizar seus talentos.
Crianças portadoras de TDAH têm problemas de criar motivação interna para permanecer em tarefas que consideram trabalhosas, demoradas e chatas. Pais e professores podem ajudá-las dando um empurrão na motivação externa. Assim, seguem algumas sugestões de Hallowell para o gerenciamento do desempenho escolar para ajudar a criança a:

(a) criar uma estrutura interna com auxílio de agendas, blocos de anotações, listas, lembretes, arquivos para marcar compromissos e prazos;
(b) organizar o ambiente de estudo para sentir-se organizado, evitando o acúmulo de papéis e materiais sobre a mesa, pois a sensação de organização externa ajuda a criar uma organização interna;
(c) prevenir frustrações lembrando que na vida há perdas e ganhos, acertos e erros;
(d) aceitar desafios com a condição de não ser excessivamente perfeccionista ou meticuloso, evitando que a criança abandone a tarefa iniciada;
(e) subdividir as tarefas grandes em menores, determinando prazos para realização de cada etapa. É comum a criança sentir medo e desânimo diante de uma tarefa grande ou com muitas etapas;
(f) priorizar e não acumular tarefas para não perder a noção de tempo. O adiamento é uma das marcas principais de pessoas com TDAH porque elas lidam mal com a administração do tempo e costumam perder os prazos;
(g) descobrir em que ambiente a criança funciona melhor e consegue manter um nível de atenção. Algumas crianças preferem fazer os deveres de casa na sala, ouvindo música porque assim conseguem abstrair os demais ruídos enquanto outras preferem o silèncio absoluto;
(h) não complicar nem acumular tarefas só para sentir-se estimulada. Iniciar nova taefa apenas quando tiver terminado as anteriores, porém, algumas crianças se saem melhor realizando duas tarefas ao mesmo tempo;
(i) descobrir o que a criança sabe fazer bem (pontos fortes), sem preconceitos;
(j) ensinar a separar um tempo para organizar os próprios pensamentos, pois transições são difíceis de serem aceitas e pequenos intervalos podem ajudar;
(K) aprender a elaborar roteiros de estudo e usar marca textos ou lápis coloridos na leitura para manter a atenção e destacar as informações mais importantes;
(l) estimular a prática de exercícios físicos, neste caso o professor é um excelente aliado.

A criança com TDAH é mais sensível a recompensa imediata e reforço positivo do que as demais crianças, portanto é recomensável incentivá-la e elogiá-la sempre que conseguir iniciar e terminar uma tarefa. Para tanto, valem recompensas como tempo extra de brincadeira ou de TV, um passeio, um presente, pontos para um benefício posterior, tempo extra com os pais etc.
A prática de atendimento dessas crianças mostra que o encaminhamento clínico leva pais e escola a acreditar erroneamente que o TDAH por si só justifica os problemas familiares, sociais e de desempenho escolar, culpando a criança pelo fracasso. No entanto, a abertura para discutir e modificar os hábitos familiares e escolares indica que as dificuldades não estão verdadeiramente na criança. A partir da disponibilidade de mudar em favor do desenvolvimento global da criança, devemos ajudá-la a entender suas dificuldades para que se sinta mais confortável com a própria diferença, aceitando e colaborando com a necessidade de modificar sua atuação. 

REFERÊNCIAS:
BARKLEY, Russel. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. Porto Alegre: Artmed, 2000.
HALLOWELL, Edward M. Tendência à distração: identificação e gerência do distúrbio do déficit de atenção da infância à vida adulta. Porto Alegre: Artmed, 1999.        
   




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O PRIMEIRO DIAGNÓSTICO A GENTE NUNCA ESQUECE...

O primeiro contato com o termo TDAH é geralmente difícil e indica alguma falta de cuidado e preparo tanto da parte de quem fala quanto da de quem ouve. É sempre um grande susto!
Comigo não foi diferente em 2001...
Eu não estava satisfeita com o processo de alfabetização das minhas filhas em uma escola de linha natural e construtivista. Apesar de a metodologia ser muito bem utilizada, as professoras e eu não conseguíamos ver qualquer avanço e as meninas continuavam sendo prejudicadas pela agitação e a dispersão, que até então era entendida como característica da idade entre 6 e 7 anos. Porém, preocupava-me a passagem para a 1a. série naquelas condições.
Como possibilidade de solução, visitei uma escola tradicional muito bem conceituada na cidade do Rio de Janeiro. A primeira visita foi formal, a coordenadora do ensino fundamental me mostrou o espaço físico, conversou sobre horários, uniforme e preços e no final me perguntou por que eu queria mudar minhas filhas de escola. Contei-lhe que as meninas eram muito agitadas e que me preocupava o baixo rendimento delas, pois como educadora valorizo uma boa alfabetização.
A princípio não haveria nenhum problema para matriculá-las e seria interessante que elas conhecessem a escola. Marcamos outra visita na semana seguinte. Chegado o dia, fomos levados pela coordenadora a uma sala cheia de brinquedos, livros, papéis para desenhar. Naquele paraíso minhas filhas quase viraram a sala de cabeça para baixo. Elas haviam mexido em tudo o que encontraram pela frente, apesar dos meus duros olhares e advertências. 
Depois de observar atentamente o comportamento das meninas, a coordenadora me disse claramente que elas não poderiam ficar na escola por causa do comportamento muito inadequado. Mais uma vez sofríamos esse tipo de preconceito e o que fazer nesse caso? Invocar nossos direitos? Forçar uma aceitação? Penso que o que quer que façamos precisa ser muito bem avaliado.
Ao perceber minha indignação ela me disse que havia acabado de assistir a um evento sobre educação e saúde. Lá ela havia conhecido um médico neuropsiquiatra, dr. Fábio Barbirato, que tinha falado sobre o DDA (Déficit de Atenção, nomenclatura utilizada na época). Se eu estivesse interessada em tirar dúvidas deveria procurá-lo na Santa Casa de Misericórdia. Saí dali tonta. Eu simplesmente não sabia o que pensar. Neuropsiquiatria????
Levei dias até pegar o telefone para procurar o dr. Fábio e como a Santa Casa estava em recesso, decidi vê-lo o mais rápido possível em seu consultório. 
A primeira consulta sempre é embaraçosa, os pais querem contar toda a história da criança, mas a ansiedade atrapalha. Por causa da angústia a fala se parece um quebra-cabeça e o médico tem que montar a história.
O jovem dr. Fábio, muito empático, estava acostumado a ouvir relatos  semelhantes e nos fez perguntas específicas em sua avaliação clínica. Em seguida, ele encaminhou minhas filhas para uma avaliação neuropsicológica e nos entregou os questionários para pais e para a escola. 
Na consulta seguinte, com a avaliação e os questionários em mãos ele definiu o diagnóstico. Era hora de começarmos o tratamento eficaz e eu, mãe ansiosa, precisava de mais informações sobre o transtorno. Sensível à minha necessidade, o dr. Fábio me ofereceu vários textos sobre o assunto para que eu os estudasse e participasse ativamente do processo, possibilitando que eu me transformasse em "co-terapeuta" das minhas meninas. 


Arnete de Almeida Faria